segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Obrigado, Angola!

Este é o último recado que vos escrevo de Angola. Ao fim desta longa jornada, parto agora para novos desafios e deixo Luanda com nostalgia...

Sentirei saudades das peripécias do Lopes e do Zé Empurra, do trânsito peculiar desta cidade e das gasosas inerentes, dos Domingos de praia no Mussulo e dos amigos que cá deixarei.

Na hora da despedida, quero agradecer a todos vocês que neste espaço me fizeram companhia, durante este período, mas quero, sobretudo, agradecer a Angola por todos os bons momentos que por cá passei.

Muito obrigado a todos e até breve!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Alcunhas

Há já alguns anos, nos meus saudosos tempos de preparatório, tinhamos um colega de turma que ostentava formas mais volumosas. Por esse mesmo motivo, e por falta de criatividade da nossa parte, a sua alcunha era "gordo". Curto e seco. E o "gordo", que durante muito tempo se conformou com aquela designação, um dia, do qual me lembro como se fosse hoje, revoltou-se:

- A partir de hoje já não quero que me chamem "gordo". Não gosto dessa alcunha. Quero que passem a chamar-me "banana"!

Naquela época de descobertas o espanto era comum entre nós, imberbes, mas ainda assim o sacana do "gordo" conseguiu surpreender-nos. Não só pela revolta do, até então, colega submisso, mas pela sugestão da nova alcunha. Ele até podia querer ser chamado de "bonito", "gostoso", ou até Bruno, que era o seu nome, mas "banana"?!?!

Aquilo não fez sentido a ninguém e, até hoje, ninguém lhe perdoou aquela insolência, até porque o "Tetão" e o "Caganita Africana" sempre aceitaram com humildade as suas alcunhas.


E quem diria que, anos mais tarde, eu teria uma sensação de dejá vu...


Aqui na obra temos um carpinteiro que era, também ele, bem fornido. A sua alcunha era "baleizão", inspirada nos famosos gelados que antigamente se vendiam em Angola e cujas embalagens eram em dose "festa de quintal". Quando o baleizão era anunciado em algum evento, as crianças (e alguns adultos sem juízo) acotovelavam-se para chegar à mesa e disputar o gelado. O que nem sequer se percebia já que, e lá está, o balde de baleizão dava para todos.

Mas voltando ao assunto, o nosso "baleizão" foi de férias e regressou hoje ao trabalho. Após cerca de um mês de ausência veio francamente mais magro, o que motivou o pronto comentário do marinheiro, o Vandame:

- Xê "baleizão", tás bué magro! Assim tás a bazar! Não pitaste nas férias, ou quê?

E o outro, com o ar superior e aborrecido de quem tem que explicar banalidades à plebe, respondeu-lhe:

-Aqui não tem mais baleizão nenhum! Você tá a ver baleizão aqui? Eu fiz regime (sempre a influência das novelas brasileiras) e agora só tenho osso. A "gordurisse" saiu.

- Ai, tás armado em magro agora? Pessoal! - anunciou o Vandame, virando-se para os restantes presentes - Ele agora não é mais baleizão, agora é cadáver!

Todos riram, alguém disse “xiiih”, outro disse “xê, tão t'abusar Balê”, e só quem não achou piada foi o alvo da brincadeira que, levantando-se e erguendo o indicador em riste, avisou a todos, "incluindo você, marinheiro de lagoa":

- O Baleizão campou e nasceu o novo madiê! Se alguém me chamar de novo de baleizão eu vou ralhar, tou já a avisar!

- Então e assim vamos te chamar o quê? - alguém quis saber.

- Agora sou o "dê uó".

- Dê quê?

- "Dê uó" seu matumbo. De Denzel Uóxinton! Agora com esse peso fiquei até parecido.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O Pato

Coisa mais que usual em Angola, diria até que obrigatória, é haver um penetra em qualquer festa. Por cá, essas figuras são chamadas de "patos" e, geralmente, são os mais descontraídos e atrevidos do evento. Passeiam-se pelo cenário como se fossem íntimos dos anfitriões, contam anedotas, comem de tudo um pouco e ainda ralham com os empregados. Alguns chegam mesmo a dar palmadas nas costas dos mais velhos querendo saber se "tá tudo rijo".

Num desses cenários...

- Cumé, a festa tá bala?

- Mais ou menos. Os rissóis são de anteontem.

- O quê?

- Eu bem desconfiei quando vi o camarão a olhar pra mim meio de lado. Acho que queria me avisar.

- Mas os rissóis são frescos! Cumé você afinal?

- Acho que não. É a primeira vez que vejo rissóis com cheiro a chulé. E já mesmo o whisky...

- Mas qual é a maka com o whisky? É da Escócia.

- Hum! Só se o Congo mudou de nome. Quando se sacode o gelo, só falta mudar de cor.

- Mas quem é o senhor, afinal? Você é pato, né? É a primeira vez que vejo o senhor numa festa minha.

- Primeira e última
.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Zé Empurra

Durante o tempo em que estou em Angola, já perdi a conta às vezes em que me pediram emprego. Isso acontece frequentemente mas, ainda assim, há sempre quem nos surpreenda. Hoje, ao chegar ao embarcadouro de onde apanho, diariamente, o barco para a obra:

- Cumé meu boss, arranja só um emprego aí na tua obra, yá? O teu avilo tá a precisar de trabalhar.

- Tu fazes o quê?

- Sou cantor, boss!

- Cantor?! – surpreendi-me eu, já com um ligeiro sorriso. – Então mas se és cantor o que queres fazer na obra?

- É que eu canto, né? Mas também sou pedreiro!

- Ahh, nas horas vagas? – brinquei eu com a situação.

Mas ele, que se mantinha sério e aborrecido com a minha falta de compreensão, tentou explicar-me outra vez:

- Não, cota! Eu antes cantava aí uns kudurus. O meu nome artístico era Zé Empurra! Dançava e tudo, xê! Mas epá, agora tão a aparecer aí muitos gajos a fazer músicas à toa e o negócio não tá fácil. Então por isso é que decidi que agora sou pedreiro.

- Mas já trabalhaste como pedreiro antes?

- Não, antes só cantava.

- Então assim vai ser difícil. Ainda por cima a obra está no fim. Mas eu vou ficar atento, se aparecer alguma coisa eu digo-te, ok?

- Yá, dá só uma dica. Aqui pra arranjar emprego é duro, sabes né? Mas epá, vamos fazer mais como então? É a vida, né?

Eu concordei que era a vida e ele pareceu ficar consolado com o facto, afastando-se enquanto dançava.

- Diz só se o teu avilo não baila bué! – gritou-me ele já longe.

Eu limitei-me a levantar o polegar e a seguir viagem no barco, curioso por ouvir um êxito do Zé Empurra.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Eu quero ver na TV!!!

A sinceridade nunca foi pecado...

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Gosto especialmente dos óculos de soldar! Vou levar uns daqui da obra para usar no meu dia a dia...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Senhora Pariu um Cágado

Antes de ir de férias deixo-vos mais uma notícia cá da "banda". Envolve feitiçaria, cágados, partos e detenções. Ou seja, o melhor é verem!



"A polícia também não achou graça à estória e levou a mãe, o bebé cágado e o curandeiro, para apurar a veracidade dos factos." Isto é que são inspectores a sério, que não deixam nada por esclarecer!

Um abraço e até dia 15 de Agosto...

P.S. - "o bebé cágado" é excelente! :D

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Virgilio


- Dás licença, engenheiro? - perguntou educadamene o Virgilio, do lado de lá da porta.

O Virgilio é um dos nossos chefes de equipa. Homem de formas volumosas e algo desajeitado, é daquelas pessoas com modos rudes, ainda que sem maldade. Mas o que lhe falta em delicadeza, sobra-lhe em humildade e gosto dele por isso.

Dada a autorização, o Virgilio lá entrou, com a sua habitual falta de jeito. Cumprimentou-me com um tímido "bom dia", enquanto, por fora das calças, coçava as "jabulanis" com uma naturalidade surpreendente.

- Vim fazer uma reclamação.

O Virgilio era naturalmente bem disposto e positivo. Gostava de filosofar com frases como "se aqui está a chover, noutro sítio faz sol", ou "todos juntos somos mais unidos que todos sozinhos". Gostava de ver sempre o lado positivo da questão e, por isso mesmo, estranhei a reclamação.

- Então, o que se passa?

- É o pitéu... O cozinheiro agora toda a hora só faz massa. Massa com atum, massa com carne, massa com peixe. É sempre massa! Assim não tá a cuiar e o pessoal quer fazer greve...

De seguida, enquanto ajeitava a "vuvuzela" nas calças, acrescentou:

- No outro dia mesmo, o Peixoto até passou mal. E eu acho que é dessa massa, engenheiro. Começou a ficar com umas febres, o espírito saiu do corpo e voltou! Eu até pensei que ia "campar" ali mesmo! - disse-me, assustado, esbracejando no ar. - Fala só com o cozinheiro pra fazer um arroz ou um funge, de vez em quando, yá? Porque toda a hora massa, epá... - terminou ele, afagando a barriga com a palma da mão aberta, como que querendo demonstrar que a pança merecia melhor.


- Vou falar com ele, não te preocupes. Vamos ver se ele começa a variar a ementa, ok?

- Yá, tá fixe. Dá só um jeito.


Uns dias depois...


- Dás licença, engenheiro? É o Virgilio!

- Entra, Virgilio. Então o cozinheiro, já deixou de fazer só massa?

- Sim, sim, sim... Agora já tá melhor, ontem fez até batata doce. Obrigado, yá? Mas vim aqui por causa de outra maka...

- Então, o que se passa?

- Era só pra pedir o dia de amanhã, pra ir tratar de uns problemas.

- Quais problemas? Vocês não podem estar sempre a faltar, ainda mais agora, no final da obra!

- Sim, eu sei, mas tem que ser mesmo. É que Domingo vou fazer o pedido na minha dama e preciso de ir buscar os mambos do alambamento. Prometo mesmo que é só amanhã, yá?

- Ó Virgilio, adianta eu dizer que não?

- Nada, não adianta engenheiro...

- Então que queres que eu faça? Olha, vai lá e boa sorte nesse pedido. Como se chama a tua noiva?

- Januzália. - respondeu-me ele sorrindo.

Naquele momento eu pressenti que ele teria problemas com os sogros, mas achei melhor não comentar. Desejei-lhe apenas boa sorte e o Virgilio lá foi, em busca do alambamento.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um pouco de Angola

Ilustrando um passeio pelo interior de Angola...







Quedas de Kalandula:





Pedras Negras de Pungo Andongo:









Barragem de Capanda:






O som de Kalandula:

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Feitiço do Mangumbala

Passando em revista a actualidade do país, não pude deixar de me divertir com uma notícia hilariante. Na verdade, a notícia em si nada tem de cómico, já que informa sobre mais um "esquema" no Banco Nacional de Angola, que continua a saque. Engraçados foram os contornos da trama.

E passo a citar o jornal:

"A detenção das duas funcionárias do sector da contabilidade gerou alguma estupefacção entre os colegas, mas disseram alguns companheiros de serviço que nos últimos tempos apresentavam um alto padrão de vida para a sua condição de simples contabilistas.

Como que a tentar fazer jus a uma espécie de novo estilo de vida, contaram alguns colegas que elas apresentaram carros de alta cilindrada, além de muitos outros sinais de riqueza, como a aquisição de residências de luxo em condomínios em Luanda.

No aspecto estético, também terão ajeitado a fisionomia através de frequência de clínicas estéticas no Brasil para onde teriam seguido viagem para se acondicionarem ao novo estatuto e modo de vida."

Se o último parágrafo já diverte, o melhor vem a seguir, ainda segundo o mesmo jornal:

"Algumas operações de busca e captura dos implicados no desfalque do Banco Nacional de Angola, então foragidos, tiveram alguns contornos dignos de filmes de espionagem e contra-espionagem, com um misto também de cenas caricatas.

Este jornal apurou de uma fonte que esteve a acompanhar as diligências para a apreensão de Francisco Mangumbala, estafeta do BNA, que a sua captura teve recortes só vistos em filmes do James Bond.

Contou a fonte que enquanto eram apreendidos outros implicados, alertado para o facto de poder vir a cair nas malhas da polícia também, Mangumbala tratou de se ocultar com o recurso aos serviços de um kimbandeiro e ficou escondido durante algum tempo."

Uma pequena interrupção na narrativa, apenas para uma nota de cultura, que ajudará a perceber o enredo:

Kimbanda significa algo como "cu­ran­deiro" em kimbundu, um idioma bantu falado em Angola. O kimbandeiro é um membro ativo da sua comunidade, é um feiticeiro. Nor­mal­mente vive afastado e não se envolve social­mente.


Mas continuando...

" O mote da sua apreensão foi dado quando, depois de uma diligência bem sucedida das forças combinadas da Polícia e dos serviços de inteligência que lidam com o crime organizado, foi localizada uma construção de sua pertença algures no Benfica, que a equipa dos diligentes selou.

Volvido algum tempo, Mangumbala passa pelo local e dá com a obra selada, entra em alvoroço e de imediato liga para a mulher a dar conta do sucedido, o que para já era indício de que continuva nas preocupações dos investigadores."


E agora o melhor:

"Após a sua localização e tendo-se apercebido que estava a ser seguido por agentes à paisana e da Polícia de Intervenção Rápida, lá para os lados do Rocha Pinto, Francisco Mangumbala intenta o último recurso para tentar escapar à perseguição, seguindo o conselho do kimbandeiro, segundo o qual deveria despejar sobre si uma poção contida numa garrafa. Fê-lo, mas seu sucesso algum.

Atentos aos seus movimentos, os agentes da PIR neutralizaram-no com um safanão que o deixou longe do alcance do milongo e foi logo algemado. Atordoado com os desenvolvimentos dos últimos instantes da sua captura, repetiu várias vezes para os seus captores: "agora sim, já sei que estou preso, mas não me batam só"

Mangumbala encontra-se detido até ao momento."

Para trás, ficou a certeza de que o dinheiro roubado pelo Mangumbala não foi o suficiente para contratar um kimbandeiro em condições. Não sabemos se a tal poção o deveria ter tornado invisível, super sónico ou super forte. Mas eu só consigo imaginar a cara dos polícias ao verem o fulano a esvaziar a garrafinha sobre a cabeça antes da detenção.

Tanta esperteza e tanta ingenuidade, só em Angola...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Sábado

Naquela casa os sábados começavam cedo, logo ao primeiro recital do galo do vizinho, a quem o Sr. Juvenal já tinha profetizado um lugar no seu prato, "bem ao lado do funge". Isto ao galo, pois ao vizinho há muito que ele tinha cumprido a promessa de apertar o pescoço "se voltasse a assobiar para as pernas da Dona Isaura".

Com o aproximar da hora do almoço, a família ia chegando e a casa ganhava cada vez mais vida. Da cozinha, onde as mulheres se dividiam em diversas tarefas, saía o maravilhoso cheiro da muamba, que aguçava o apetite dos homens na sala. Ali, os dois genros discutiam o último Petro x D'Agosto, enquanto o Sr. Juvenal tentava resistir aos três netos mais novos, que insistiam em escalá-lo, como se de uma montanha se tratasse. Já o neto mais velho, permanecia ali ao lado, no sofá, com a nova namorada que hoje trouxera para o almoço. Mãos dadas e aquela conversa de romance fresco: “Quem é o meu bebézinho? Sou eu. Quem é a minha fofuxinha? Sou eu”. E depois ele decidiu dizer que jamais se separariam e seriam sempre felizes, o que fez o Sr. Juvenal reagir entredentes: "Tsc, tsc, logo com essa feia?"

A muamba, acompanhada do funge, chegou à mesa e todos a seguiram. Entre o "passa os kiabos", "dá só o sal", "põe mais jindungo" e outras trivialidades, lá se concluiu o repasto sem grandes incidentes. Excepção feita ao momento em que o Sabú, um dos genros, avaliou o tempero como razoável. Bom mesmo era o molho da velha dele "aquilo sim, era muamba!" E foi o outro genro que teve que segurar o Sr. Juvenal, antes que este saltasse para cima do Sabú. Ia dar-lhe uma lição, para ele aprender a ter juízo. Comia de graça e ainda refilava? Pensava o quê, o atrevido? A Dona Isaura também tentou aliviar a tensão pedindo que não ligassem ao marido. "Ele era assim meio..." disse, fazendo um gesto no ar que abria espaço a mil interpretações. O Sr. Juvenal podia ser "assim meio agressivo", "assim meio nervoso", ou simplesmente "assim meio doido".

Após os ânimos serenarem, e já sentados de novo no sofá, o Sr. Juvenal quis saber:

- Vai um digestivo?

Ia, claro! Ele foi à estante onde trancava as suas garrafas e retornou com uma delas, cujo aspecto deixava algo a desejar, obrigando o Sabú a perguntar se era mesmo aquilo que iam beber.

- É, porquê? - perguntou o Sr. Juvenal, agressivo.

- Nada, sirva.

O resto da tarde passou-se em conversas banais, as filhas de um lado contando as novidades à mãe, os genros do outro falando de tudo um pouco. Já o Sr. Juvenal, há muito que aprendera a dominar o truque de segurar no jornal em frente à cara, enquanto dormia sem que ninguém notasse. A maioria das suas tardes eram passadas assim, o que causava estranheza à Dona Isaura, que nunca percebera como um homem que lia tanto podia ser tão mal informado.

E por trás do jornal, ele só reagia quando alguém o incomodava, como foi, naquele dia, o caso do neto mais novo que quis saber o que significava corrupção.

- Pergunta ao teu pai! - disse secamente uma voz por trás do jornal.

Aquilo gerou nova confusão. O Sabú disse que não estava ali para ouvir ironias de um velho que era "assim meio esquisito" e todos concordaram, criticando em conjunto o Sr. Juvenal. Mas ele já tinha o jornal à frente da cara e não quis nem saber...

E aquela tarde agradável terminou ali, até porque o ambiente ficou "assim meio"...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Barbeiro

Chego ao barbeiro e sento-me, enquanto aguardo a minha vez. Já a minha cara estava escondida por trás do “Jornal de Angola” quando ouço o aviso:

- Aguarda só um coche, yá? O outro barbeiro foi só cagar!

Por segundos tentei perceber se aquela informação era dirigida a mim. Parei de ler o jornal, que baixei ligeiramente, o suficiente para poder observar o informador a afagar o bucho com a mão.

- Esses funges às vezes dão cabo de um gajo. Sabes como é, né? O óleo de palma…

Eu preferia não saber como era… Mas não demoraram nem três minutos e lá chegou o “cagão” cheio de vontade de rapar umas cabeças. O artista, que não devia ter mais do que 1,50m, estava cheio de disposição e apressou-se a chamar:

- Quem é o próximo?

Eu olhei para os dois lados, na esperança de haver alguém a quem dar a vez, mas eu era o único. Renitente, lá avancei para a cadeira, enquanto só pensava se aquele anão teria conseguido chegar ao lavatório para lavar as mãos, depois das aflições na casa de banho e antes de me cortar o cabelo.

Meio a contragosto lá me sentei e esperei que o corte começasse. Ele, depois de colocar todas as suas ferramentas em ordem, perguntou curioso:

- E então, corto como?

Eu expliquei e quis certificar-me:

- Percebeu?

- Hum… Yá… Pente 3 né?

- Só dos lados…

- Yá, só! – disse ele, afagando o queixo enquanto olhava para o meu cabelo. Parecia um daqueles artistas, de pincel na mão, a olhar para a tela em branco antes das primeiras pinceladas. Assim estava ele, no caso com o pente na mão, pronto a fazer a sua obra prima.

E lá começou o trabalho enquanto eu seguia tudo atentamente, através do espelho à minha frente. Deslizava a máquina pela minha cabeça e ia cantarolando: “Se eu soubesse não casava com aquela mulataaaaa… A mulata me dizia, que era mesmo delicada, afinal fui ver e é pior que uma cebolaaaa” - Fazia chorar! Explicou depois.

Quando o repertório acabou, e porque o silêncio é coisa que irrita qualquer bom angolano, ele quis meter conversa:

- Será que a Luciana vai voltar a andar?

- Hã?! Quem?

- A Luciana, da novela. Tenho andado preocupado com isso, ela merece andar, né?

- Merece, claro! Ela vai andar de novo, mas só no fim. – respondeu, por mim, o barbeiro do lado.

- Mas aquela irmã dela é que é uma ordinária! – acrescentou um dos clientes que esperava a vez. Largara o jornal para entrar naquele tema, mais interessante.

E, de repente, eu vi-me no meio daquela discussão sobre novelas, entre os três barbeiros e o cliente. Discutiam o assunto como se a Luciana fosse uma filha, prima ou irmã de um deles, tal a vivacidade e importância que dedicavam ao caso.

- Vai ficar careca!

- A Luciana?

- Não, você! Olha só aqui essa falha. – apontou ele batendo com o pente repetidamente na minha cabeça. – A Luciana, aquela gata com bué cabelo ia ficar careca? Você fala à toa, yá?

E depois da minha tentativa falhada de entrar no debate, limitei-me a escutar o resto da conversa. Fiquei a saber que o Bené, no fundo, era boa pessoa, a Madá tinha umas pernas "bem nutridas", rabo idem mas era armada, e sim, a Helena tinha feito bem em deixar o Marcos, que era um bandido.


Eles lá foram discutindo os assuntos polémicos da novela, até que, entretanto, entra no estabelecimento uma senhora anunciando ginguba.

- Mãezinha, tá a quanto?

- Só 100, parente!

- Xê, vou levar para os dengues.


E mais uma paragem no corte, que estava quase no final. Enquanto aguardava a transacção, aproveitei para inspeccionar melhor o trabalho até então feito. Ele, que chegando percebeu a minha atenta análise no espelho, quis saber:

- Tá a ficar bom, né?

- Sim, mas não corte mais, está bom assim.

- Yá, vou só por álcool.

- Álcool?! Álcool onde?

- No pescoço, onde mais?

- Mas pra quê?

- Epá, nem sei, mas o chefe diz que temos que por. Deve ser pra refrescar, ou quê!

Dispensei o álcool.

Fiz o pagamento, conferindo mais uma vez no espelho o resultado, e lá saí. A caminho de casa, no rádio estava a dar um programa, adivinhem, sobre novelas. Pois é, os ouvintes ligavam e falavam das novelas antigas que tinham deixado saudades, dos personagens, etc., reforçando a minha convicção de que o povo Angolano, neste Mundo, é o mais apaixonados por novelas.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cada vez mais cara

Luanda foi, novamente, considerada a cidade mais cara do Mundo, superando Tóquio que ficou em segundo lugar. Segundo o mesmo estudo, o alojamento em Luanda custa o triplo do que em Lisboa, sendo que uma refeição rápida (o hamburger é geralmente utilizado neste tipo de comparações) custa 12,7 €, contra os 4,65 € de Lisboa.

Para quem cá vive, estes preços não espantam, pois há muito que nos habituámos a pagar valores absurdos por serviços cuja qualidade, muitas vezes, não atinge sequer o mínimo admissível.

Qual o motivo, então, para os valores praticados em Luanda? Para além das taxas de intermediação elevadíssmas, ocorre-me outro que talvez seja o principal: por mais caros que sejam os preços, existe, por cá, sempre alguém com possibilidade de pagar os 9 milhões de dólares que custa um apartamento na Torre do Ambiente, na marginal de Luanda...

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Orientando o Trânsito




"Ah e tal, porque o trânsito em Luanda é caótico..." Pudera!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Gastoso e Gostoso

- Mulher é isto, não a velha que tenho lá em Bragança. – pensava o detentor de visto de trabalho, enquanto se perdia nas curvas Africanas… As mesmas curvas que, com o calor típico dos trópicos e meia dúzia de truques novos (para ele), garantiam a satisfação total (dele, entenda-se).

E depois do “amor”:

- Dá só um dinheiro, yá? É pra comprar saldo pra poder ligar pra ti, bebé! – E o bebé, ainda embriagado de prazer, dava o que tinha e prometia que amanhã dava mais, tá?

Mais tarde ligaria à velha em Bragança a queixar-se que cada vez se pagava menos em Angola e que isto já tivera melhores dias. Porque ainda estava aqui? Por ti, meu amor, por ti… Porque ainda assim, o pouco ajudava e não tardaria o Joãozinho iria para a faculdade. Por um futuro melhor, meu amor… E pensou encenar um choro de saudades, dizendo como lhe custava estar longe, mas lembrou-se da tarde perdida nas quentes curvas e teve remorsos. Não era assim tão sacana.

Enquanto isso, as curvas garantiam a satisfação total (agora delas) nos braços de outro nativo. Ainda não haviam ligado ao bebé, mas ligariam, assim que o saldo estivesse no fim…

Desta forma, ou similar, algumas Angolanas passaram a ter dois tipos de homens, para diferentes necessidades: O gastoso e o gostoso, consoante a ocasião…

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Festa de Quintal

“Se quiser homem casado, pensa duas vezes…” a voz do Heavy C ecoava por todo o quarteirão, anunciando que alguém, naquela rua, hoje dava uma festa de quintal. As festas de quintal são uma das tradições Angolanas com mais adeptos. Por cá, qualquer motivo serve para reunir a família e os amigos numa festa com bastante comida e boa música. E assim era, naquele dia.

Quando entrei no quintal, já a música ia a meio e o mesmo Heavy C informava que:

“Na rua, não da pra se abraçar... na disco, não da pra se roçar... senão mulher vai saber, e é problema que vamos ter...”

Lá dentro, meia dúzia de casais sacudia os corpos ao som da música, ao bom jeito angolano. Os restantes devoravam “Cucas” e serpenteavam por entre as cascatas de marisco, em busca da gamba perfeita. O ambiente estava animado.

- Fiquem e comam à vontade! – instruiu-nos a aniversariante que, dadas as vestimentas, mais parecia uma noiva.

Aliás, a própria festa parecia um casamento e até fotógrafo tinha. E também um outro que carregava as luzes. E os dois passaram o tempo todo de um lado para o outro, o primeiro indicando ao segundo onde queria as luzes, e este desviando convidados e convidadas do caminho, subindo em mesas e fazendo todo o tipo de contorcionismo em nome do profissionalismo. A certa altura, chegou mesmo a bater no ombro da aniversariante para pedir “dá só licença” porque esta estava a fazer sombra.

Muita sombra era o que fazia também o Custódio, queixou-se mais tarde o fotógrafo. Que o gordão não parava quieto e ele não conseguia trabalhar direito!

E de facto o Custódio era um irrequieto. Com arrufos de dançarino, posso garantir que “varreu” o quintal com pelo menos 90% da população feminina da festa. Sacudia as suas companheiras para a esquerda e para a direita e rodopiava em ritmo alucinante. O homem era um artista e há quem jure tê-lo visto mesmo a dar uns apertões na mãe da aniversariante, o gordo!

No outro canto do quintal estavam os mais velhos que, empilhando garrafas vazias na mesa, limitavam-se a apreciar o ambiente.

- Mas vocês não param de beber? - disse uma das amigas da aniversariante. - Que coisa!

E eles pensaram exactamente o mesmo ao ver aquelas coxas afastarem-se, por baixo da saia curta. No caso, que coisas!

Vez ou outra, quando o DJ metia “uma daqueles tempos” lá se atreviam a dar também umas passadas na pista. Mas o avô Bento disse que não dançava mais enquanto “aquele pançudo” não saísse dali. Parece que o Custódio lhe desestabilizara a dança quando, a alta velocidade, passou rodopiando por ele e disse:

- Xê avô, não vais aguentar. Essa dama não é pra ti, cota!

Aquele miúdo pensava o quê? Ele sempre fora um grande bailarino e que o diga a avó Mariquinha que nunca teve pedalada para ele. Até concursos na Vila Alice havia ganho, coisa que esse pançudo nunca fez!

Mas o Custódio não queria nem saber. Não dispensava uma. Dançava e ainda cantarolava acompanhando a música. A camisa, que por esta altura só mantinha um botão apertado, estava já encharcada. Mas um artista não pára, nem mesmo quando “o DJ também não põe aqueles sons que batem a sério, pra esfregar como mandam as regras!”.

Entre danças, comilanças e fotos, lá chegou a hora de apagar as velas. Aos pedidos de discurso e à timidez da aniversariante, respondeu o avô Bento, anunciando que ele mesmo ia falar. “Muitas felicidades e anos de vida, etc, etc” e, ainda ressentido com o Custódio, umas moralidades “pra esses miúdos novos”. Contou que hoje em dia já não se sabia dançar, que era “só agarrar à toa” e perguntou se queriam ver o que eram umas passadas a sério. Mas não houve unanimidade e o avô Bento foi ajudado a descer da cadeira, ainda resmungando e tentando acertar uma ginguba na cabeça do Custódio.

Brindou-se à aniversariante e mal recomeçou a música lá saiu o Custódio, disparado, em busca da próxima dança. O avô Bento, por sua vez, sentou-se no seu canto de pernas cruzadas e cara de “não me chateiem”. E nem mesmo quando a aniversariante o viera convidar para uma dança ele se movera. “Agora é tarde”, resmungou.

Diz quem ficou, que a festa durou até às tantas, como todas em Angola.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O Italiano

Percebi que algo se passava quando comecei a ser repetidamente questionado sobre o Italiano. Volta e meia alguém queria saber o que eu achava do Italiano. Eu achava pouco, até porque ainda mal tinha estado com a figura.

Mas o Italiano passou a ser o assunto principal em todas as refeições. Ninguém parecia suportar aquele napolitano que era tão esquisito que a sua alcunha passou a ser “O Esquisito”. Num desses debates mais acesos, alguém dissera que aquele Italiano já passara das marcas há muito tempo. Já andava a pedi-las desde que chegara, o merdas.

- Mas porquê? – tentava perceber eu, sem opinião formada a respeito do “Esquisito”.

- Esse gajo vem sempre aqui fazer modificações. Hoje quer tomadas aqui, amanhã quer torneiras ali e depois fica lá a dizer “Capixi? Capixi?” armado em esperto! Assim não dá!

E não dava, de facto. A ira contra o Italiano tornara-se unânime, pela obra. Aparentemente, o seu ar altivo era mal aceite pelos restantes, tanto que, há dias atrás, o Manuel já anunciara que ainda ia dar uma cabeçada no Italiano. Quem contratara aquele gajo irritante, afinal? Ele até gostava de Italianos, mas aquele?

Foi, portanto, com curiosidade que um dia acedi ao chamamento do Italiano que queria, comigo, discutir umas ideias sobre os arranjos exteriores. Discutia-se a falta de privacidade na zona da piscina quando lhe sugeri que se plantassem mais X palmeiras junto à mesma, para garantir maior intimidade. Ao que ele me respondeu, com aquele ar de superioridade intelectual:

- “Em vez de X, não é melhor plantarmos só 10?”

Estava formada a minha opinião sobre o Italiano.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Gripe A




Cuvu cuvu cuvu cuvu... Se a vossa tosse for assim, já sabem, é gripe A!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Há umas semanas foi assim...

- Cumé meu cota, posso lavar o teu carro?

- Não é preciso, ele está limpo.

- Ai é? Então vou sujar...

E quase posso garantir que o meu queixo descaiu de espanto quando o vi abrir a braguilha e contornar o meu carro, de fálico na mão, urinando-o de fio a pavio. Melhor dizendo, e dadas as sacudidelas que garantiram maior área afectada pelo ataque, urinar é um termo suave demais para o acto. O que ele fez, na verdade, foi mijar-me o carro todo. Seguiu-se novo diálogo:

- E agora, meu cota, já posso lavar? São 500 kwanzas, mas se for com esponja são 1000.

E foi nesta altura, quando eu ainda tentava acreditar no que tinha acontecido, que o Sr. Paciência (sim, o guarda ainda é o mesmo - há que garantir eficiência) chegou ao local e correu com o miúdo dali para fora.

- Só agora, Sr. Paciência?

- Ainda cheguei a tempo.

- Ai é, de quê?

Como resposta, ou na falta dela, ostentou-me apenas os 4 dentes que fazem do seu sorriso uma coisa caricata de se ver... E prontificou-se a arranjar uns dengues para me lavar o carro.

- E vai ser free, Sr. Engenheiro!

Afinal há mais...

Bem haja a todos vocês que, mesmo após ter decidido fechar este espaço, há uns meses atrás, foram persistentes e continuaram a visitar-me. Pois é, a poeira baixou e eu, que fui coleccionando algumas peripécias durante este tempo, vou partilhá-las, agora, convosco!

A minha estadia em Angola está, agora sim, quase no final. Serão mais dois meses e depois ficará a saudade... Mas novos projectos se desenham no horizonte, uma nova cidade e, muito provavelmente um novo blog. Mas sobre isso falamos depois. Agora é apenas tempo de vos dizer: bem-vindos de volta!

Um abraço a todos e até ao próximo recado (para muito breve, onde vos contarei sobre as festas de quintal em Angola...)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Último Recado


Após alguns meses de recados, chegámos ao último, porque algum dia tinha que ser!

Agradeço a todos os que visitaram o blog e me deram o estímulo necessário para continuar a escrever, durante este período.

Continuarei em Angola, por mais uns tempos, sempre atento à realidade deste país tão peculiar.

Um abraço e até ao próximo blog…

O Assalto

Sempre que se fala de Angola, invariavelmente há uma pergunta que toda a gente me faz:

- Então e assaltos, há muitos? – perguntam curiosos e entusiasmados, certamente à espera de ouvir alguma história com tiros e violência.

E eu noto perfeitamente o desânimo quando vos digo que “até à data não tive problema nenhum”. Alguns chegam mesmo a exteriorizar a decepção:

- Fogo… Nem sequer uma tentativa de assalto? Uma abordagem, nada?

- Nada!

Por isso mesmo, consigo imaginar muita gente que, ao ler o título deste recado, gritou com os punhos cerrados no ar:

- Yes!! Até que enfim!

Eu, lamentando eventuais desilusões que possam ocorrer, passarei a narrar a ocorrência.

E foi assim que aconteceu:

Seriam umas 18h30 quando o barco nos deixou em Luanda, após mais um intenso dia de trabalho no Mussulo. Como habitualmente, o embarcadouro estava cheio de gente, numa balbúrdia imensa. Dezenas de miúdos a jogar à bola, algumas vendedoras e inúmeros desocupados dividiam o espaço que, àquela hora, estava já escurecido pela noite.

Desde que comecei a trabalhar no Mussulo, de vez em quando aparece um miúdo (dos seus 14/15 anos) para me acompanhar no trajecto entre o barco e o carro. Aproveita sempre o percurso para me dizer que esteve ali o dia todo “a controlar o carro”, tendo até já evitado alguns furtos, até porque:

- Esse vosso guarda é um boelo! No outro dia até levou galhetas de um cota aí… Ele fica só aí à toa, não protege nada.

Pois bem, voltando ao caso, hoje mais uma vez, quando o barco atracou, lá estava o rapaz à minha espera.

- Cumé meu cota, é hoje que me vais dar um cumbú?

- Não, hoje estou sem dinheiro aqui comigo.

- Xê, sempre a mesma conversa? Vocês brancos são muito agarrados! Eu tenho pedido com educação, mas se “toda a hora” nunca tens, assim vou ter que te roubar!

E como ele deve ter percebido a minha surpresa com aquela revelação repentina, acrescentou:

- Vou mesmo, cota! Não ‘tás a facilitar os mambos!

- Mas porquê que eu tenho que te dar dinheiro?

- Porque eu controlo o teu carro.

- Mas nós temos um guarda ali. Não preciso que controles nada.

E ele olhou para o guarda ao fundo que, sentado num tijolo parecia, de facto, fazer tudo menos guardar os carros, e riu-se. Levou as mãos à cabeça e ao bom jeito Angolano disparou:

- Ê, ê, ê! Esse? Parece um anão! Isso lá é guarda?

Com aquela conversa, entretanto chegámos ao carro. Eu abri a porta e preparava-me para entrar, quando o rapaz voltou à carga:

- Xê? Não baza só. O cumbú?

- Já te disse que não tenho nada.

- Ai é? Vou chamar o meu amigo “caenche”, então!

E enquanto ele assobiava ao dito amigo, eu fui entrando no carro, preparando-me para ir embora. Antes, porém, que tivesse tempo de arrancar apareceu o tal “caenche”, que eu conhecia de vista, por ser presença diária por ali.

- Vê só Jaimão, tou a pedir cumbú a esse aí, porque lhe guardei o carro, e ele não quer dar!

- Nada, não podes. Esse é muçulmano. Não podes pedir nos muçulmanos.

E eu, que até ali só queria ir embora, despertei com aquela informação. Muçulmano?! Pus a cabeça do lado de fora da janela e cumprimentei o Jaimão, tentando criar um ambiente mais amistoso. Mas no fundo, o que eu queria mesmo era perceber as minhas origens árabes. E não era o único porque o tal miúdo, aspirante a ladrão, perguntou:

- Muçulmano, esse? Nem é castanho! Muçulmano de onde mais?

E o Jaimão, que era grande mas tinha um ar inofensivo, calmamente explicou:

- Esse vai todos os dias para o Mussulo. Trabalha lá. É mussulmano! Não podes pedir dinheiro aos mussulmanos porque eles passam toda a hora aqui!

E foi então que eu percebi que era um Mussulmano com dois “esses”, os mesmos de MuSSulo. Despedi-me do Jaimão e, antes de arrancar, olhei para o outro rapaz e disse:

- Tas a ver, não podes chatear os Mussulmanos.

E lá fui eu para casa, apenas com mais uma pequena paragem, uns metros mais à frente, onde um tijolo suportava um certo personagem:

- Sr. Paciência, você tem que estar ali ao pé dos carros, não é aqui! Como é que você controla as coisas daqui de longe?

- Ya, senhor, ya!

E como sabia que ele ia responder “ya” a tudo o que eu dissesse, e já se ia fazendo tarde, lá me fui embora.

Caenche: Na gíria local significa um homem musculado.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

CAN 2010


Após viver o Euro2004 e a emoção com que os Portugueses acolheram o evento, tinha curiosidade em saber como seria este CAN2010, em Angola.

Ao chegar cá, há dois dias, logo percebi que os Angolanos adicionaram-se a este evento com muita paixão, fé e entusiasmo. São aos milhares as bandeiras de Angola nas ruas, um pouco por todo o lado, bem como o interesse demonstrado, por toda a gente, no torneio.

Há uma vontade enorme para que este CAN seja um sucesso, e toda a gente está disposta a dar o seu melhor em prol desse objectivo. Nem mesmo os tristes acontecimentos de Cabinda foram suficientes para resfriar os ânimos. Pelo contrário, só aumentaram a vontade em "fazer as coisas bem".

Estão, portanto, de parabéns os Angolanos, acima de tudo pelo espírito demonstrado ate agora.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

De volta

E cá estou eu de volta a Luanda, reabrindo a época de recados. À minha espera estavam 30 graus e uma desilusão colectiva pelo empate de Angola no primeiro jogo do CAN2010. Talvez por isso tenhamos esperado três horas (!!!) para que as malas começassem a passear pelo tapete.

E para os marinheiros de primeira viagem foi o cartão de boas vindas mais fiel possível à realidade. Para quê enganá-los se se pode mostrar o que esperar de Angola logo ali, no aeroporto?

Facilmente se distinguiam ali os novatos. Eram os únicos que esbracejavam e tentavam arrancar de uma funcionária qualquer informação. Esta, espojada (sentar é um verbo que não se aplica ao uso que fazia da cadeira) limitava-se a dizer:

- Eu não sei nada disso. Isso é com a TAP. O meu trabalho não é esse.

A fúria e indignação dos "virgens de Angolanismos" contrastava com a resignação dos mais experientes nestas andanças.

- Mas ninguém faz nada? - gritava um dos aflitos.

- Para quê, meu senhor? Sente-se e espere.

"Bem-vindos a Angola", pensava eu...