sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Alcunhas

Há já alguns anos, nos meus saudosos tempos de preparatório, tinhamos um colega de turma que ostentava formas mais volumosas. Por esse mesmo motivo, e por falta de criatividade da nossa parte, a sua alcunha era "gordo". Curto e seco. E o "gordo", que durante muito tempo se conformou com aquela designação, um dia, do qual me lembro como se fosse hoje, revoltou-se:

- A partir de hoje já não quero que me chamem "gordo". Não gosto dessa alcunha. Quero que passem a chamar-me "banana"!

Naquela época de descobertas o espanto era comum entre nós, imberbes, mas ainda assim o sacana do "gordo" conseguiu surpreender-nos. Não só pela revolta do, até então, colega submisso, mas pela sugestão da nova alcunha. Ele até podia querer ser chamado de "bonito", "gostoso", ou até Bruno, que era o seu nome, mas "banana"?!?!

Aquilo não fez sentido a ninguém e, até hoje, ninguém lhe perdoou aquela insolência, até porque o "Tetão" e o "Caganita Africana" sempre aceitaram com humildade as suas alcunhas.


E quem diria que, anos mais tarde, eu teria uma sensação de dejá vu...


Aqui na obra temos um carpinteiro que era, também ele, bem fornido. A sua alcunha era "baleizão", inspirada nos famosos gelados que antigamente se vendiam em Angola e cujas embalagens eram em dose "festa de quintal". Quando o baleizão era anunciado em algum evento, as crianças (e alguns adultos sem juízo) acotovelavam-se para chegar à mesa e disputar o gelado. O que nem sequer se percebia já que, e lá está, o balde de baleizão dava para todos.

Mas voltando ao assunto, o nosso "baleizão" foi de férias e regressou hoje ao trabalho. Após cerca de um mês de ausência veio francamente mais magro, o que motivou o pronto comentário do marinheiro, o Vandame:

- Xê "baleizão", tás bué magro! Assim tás a bazar! Não pitaste nas férias, ou quê?

E o outro, com o ar superior e aborrecido de quem tem que explicar banalidades à plebe, respondeu-lhe:

-Aqui não tem mais baleizão nenhum! Você tá a ver baleizão aqui? Eu fiz regime (sempre a influência das novelas brasileiras) e agora só tenho osso. A "gordurisse" saiu.

- Ai, tás armado em magro agora? Pessoal! - anunciou o Vandame, virando-se para os restantes presentes - Ele agora não é mais baleizão, agora é cadáver!

Todos riram, alguém disse “xiiih”, outro disse “xê, tão t'abusar Balê”, e só quem não achou piada foi o alvo da brincadeira que, levantando-se e erguendo o indicador em riste, avisou a todos, "incluindo você, marinheiro de lagoa":

- O Baleizão campou e nasceu o novo madiê! Se alguém me chamar de novo de baleizão eu vou ralhar, tou já a avisar!

- Então e assim vamos te chamar o quê? - alguém quis saber.

- Agora sou o "dê uó".

- Dê quê?

- "Dê uó" seu matumbo. De Denzel Uóxinton! Agora com esse peso fiquei até parecido.

5 comentários:

Anónimo disse...

Ricas, esta está "gostosa"! Adorei!
Bjs

MIAU

Divagações de uma Tagarela disse...

Não sabia que vocês assistiam novelas brasileiras...e gordo, só faz gordices mesmo, seja onde for!

ótima semana para vc.

Tania disse...

Espectáculo... baleizão é malaico... agora Dê Uô... isso é chique! lolololol

fd disse...

lol
muito bom!

Sónia disse...

Dê Uô é qualquer coisa lol Muito bom hehehe

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