quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O Zé Empurra

Durante o tempo em que estou em Angola, já perdi a conta às vezes em que me pediram emprego. Isso acontece frequentemente mas, ainda assim, há sempre quem nos surpreenda. Hoje, ao chegar ao embarcadouro de onde apanho, diariamente, o barco para a obra:

- Cumé meu boss, arranja só um emprego aí na tua obra, yá? O teu avilo tá a precisar de trabalhar.

- Tu fazes o quê?

- Sou cantor, boss!

- Cantor?! – surpreendi-me eu, já com um ligeiro sorriso. – Então mas se és cantor o que queres fazer na obra?

- É que eu canto, né? Mas também sou pedreiro!

- Ahh, nas horas vagas? – brinquei eu com a situação.

Mas ele, que se mantinha sério e aborrecido com a minha falta de compreensão, tentou explicar-me outra vez:

- Não, cota! Eu antes cantava aí uns kudurus. O meu nome artístico era Zé Empurra! Dançava e tudo, xê! Mas epá, agora tão a aparecer aí muitos gajos a fazer músicas à toa e o negócio não tá fácil. Então por isso é que decidi que agora sou pedreiro.

- Mas já trabalhaste como pedreiro antes?

- Não, antes só cantava.

- Então assim vai ser difícil. Ainda por cima a obra está no fim. Mas eu vou ficar atento, se aparecer alguma coisa eu digo-te, ok?

- Yá, dá só uma dica. Aqui pra arranjar emprego é duro, sabes né? Mas epá, vamos fazer mais como então? É a vida, né?

Eu concordei que era a vida e ele pareceu ficar consolado com o facto, afastando-se enquanto dançava.

- Diz só se o teu avilo não baila bué! – gritou-me ele já longe.

Eu limitei-me a levantar o polegar e a seguir viagem no barco, curioso por ouvir um êxito do Zé Empurra.

1 comentários:

Salete Cattae disse...

Muito engraçada essa história! É cada um que aparece! Mas acho que seria bem engraçado tê-lo na obra, a começar pelo nome artistico...Zé Empurra...hehehehe...agora quanto a obra, não sei se iria ficar em pé por muito tempo!hehehehe

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