quinta-feira, 16 de julho de 2009

A Internet

Estava eu a pensar no que escrever para actualizar os recados, quando o assunto, mesmo a pedi-las, bateu-me à porta na forma de dois técnicos que vieram para trocar a antena da internet.

Chegaram às 12h30, que é uma hora esquisita.

- Senhor, viemos trocar a antena da internet, não vai demorar nada.

- Mas agora que eu ia almoçar?

- Sim, vai ter que esperar um pouco. Até porque não está com cara de muita fome.

Surpreendido com a audácia dos técnicos lá concordei, com uma espécie de gemido, a esperar os 10 minutos que me anunciaram.

E passados 45 minutos (em Angola é assim) lá me mandaram testar o serviço:

- Então, está a funcionar bem?

- Aparentemente sim…

Eles lá se foram embora e, já com os dois do lado de lá da porta, ainda consegui ouvi-los pela última vez:

- Aparentemente, vê só… Cabrões dos brancos nunca sabem dizer que tá bom! Porra!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Mestre

Não sei se por imposição ou espontaneamente, mas o certo é que agora o nosso Lopes foi promovido a "Mestre" pelos seus subordinados. O que mais se ouve agora pela obra é "mestre Lopes" para cá e para lá.

- Ouça, estes homens chegaram-me às mãos e mal sabiam pregar um prego. Em 3 meses já muito o Lopes fez. - dizia ele sem falsas modéstias. - Mais 2 meses e estão como eu.

- Ou melhores ainda Lopes.

- Nem tanto, nem tanto... - lá estava eu a exagerar.

Sentia-se o orgulho no discurso do Lopes, que continuou a justificar o grau de Mestre que lhe fora atribuído.

- Ainda hoje, veja lá bem, chega-me uma destas almas toda empenada. Coxeava mais que um pato. "Anda cá ao Lopes", disse-lhe eu. Tinha um rasgão no joelho, diz ele que caiu a jogar à bola, ontem à noite. Foi ou não foi Zé?

O Lopes procurava no outro a confirmação da sua história, apontando o próprio joelho para que o Zé percebesse, à distância, do que ele falava. E o polegar do Zé para cima indicava que sim, fora tal e qual como o Lopes contava.

- Peguei na caixa de primeiros socorros, meti-lhe um pouco de "betódine" (assim mesmo) e curei-o. O Lopes não é médico, mas o certo é que tratei o gajo. Aqui temos que ser como Jesus, que teve mil ofícios. (teve?!?)

- Pois é Lopes, estamos em Angola...

- Mas porquê? - gritou ele. E acrescentou em tom de desespero - Homem de Deus?

Virou-me costas e saiu com os braços abertos para o céu, como que esperando uma resposta divina. A pergunta ficou no ar, mas não deixa de ser boa...

terça-feira, 7 de julho de 2009

O Prédio Chinês

Ontem dei comigo a olhar, estarrecido, para uma das muitas obras que os chineses estão a construir em Angola. E eu vou já avisando que esta coisa dos chineses estarem na moda vai dar mau resultado. Qualquer dia o resto do Mundo torna-se obsoleto devido a tanta "China" por aí. Há dias o próprio Lopes tentava negociar 1 servente chinês em troca de 5 nacionais. Se o câmbio continua a subir assim a mão de obra angolana vira artigo de museu. Fiz-lhe notar que temos que incentivar o enquadramento dos Angolanos, ao que ele repondeu com uma gargalhada sarcástica. Na verdade, foi mais um latido.

Mas voltemos ao assunto. O edifício tem uns 20 andares (não me apeteceu contá-los) e é, todo ele, desprovido de qualquer requinte arquitectónico. Diz quem viu, que o prédio foi levantado em menos de um ano, o que eu acredito. Mas se em detrimento da rapidez se emprestasse alguma beleza à questão também não se perdia nada.

Ainda assim, já ouvi alguém dizer que era lindo, mas devia ser algum socialista português, sem muito com que se entusiasmar ultimamente, num momento de descontrolo emocional.

P.S. – Vou abster-me de comentar a “Ronaldomania” que se vai vivendo, porque eu felizmente (serei o único?), tenho mais que fazer e em que pensar.

domingo, 5 de julho de 2009

Pelas ruas de Luanda...

Da Estrada da Samba para a António Barroso (agora Marien Ngouabi), na Maianga...

Convém notar que era Domingo, não pensem que o trânsito é sempre assim apetitoso!



Música: Poema do Semba - Paulo Flores

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sr. Jorge

Hoje apresento-vos o nosso administrativo. O Sr. Jorge é um homem volumoso em matéria e espírito. É do tipo de pessoas que raramente se irrita, mas que, quando acontece, a luta pode durar três dias.

Segundo o próprio, apenas por uma vez isso sucedeu. E ele até avisou que não suportava espectáculos de ballet. Não tinha paciência para “aqueles pulinhos em bicos dos pés”. Mas a esposa insistira e ele, contrariado, lá fora.

- Não aguentei nem meia hora. Quer dizer, eu já estava agoniado e, como se não bastasse, ainda diz o meu mais novo que quando for grande também quer ser bailarino? Mas que conversa é esta afinal? Peguei no miúdo e saí dali para fora o mais depressa que pude.

Consta que na saída ele ainda chamou o porteiro de bicha e disse que se visse mais alguém de collants, matava!

- Fiquei três dias sem falar à “Maria” mas depois passou. Eu tenho um coração de manteiga…

O Sr. Jorge deve andar na casa dos 50 anos, naquela idade em que já sabe que nunca será o dono de uma grande empresa de construção, conduzindo o Mercedes da praxe, mas ainda pode esperar algumas surpresas da vida, como ganhar o euromilhões ou furar-lhe um pneu. Furou-lhe um pneu.

Chega à obra mais sujo que o próprio carro (que não deve lavar desde que cá chegou) e com a aflição estampada no rosto.

- Estou tramado! Estou desgraçado…

- O que lhe aconteceu homem?

- Furei um pneu quando estava aqui a chegar à Praia do Bispo.

- E então, pelo seu aspecto já o trocou. Agora é só mandar esse para arranjar. Não precisa de ficar assim.

- Não troquei nada. Você nem sabe… Então eu meto o macaco ao sítio e levanto o carro. Nisto vou à mala buscar o outro pneu. Volto e onde estava o macaco? Não é que estes cabrões me levaram o macaco?

- A sério? Num espaço de tempo tão curto conseguiram roubar o macaco?

- E com o carro levantado. Sacanas d’um raio!

- Então e depois?

- Depois?! Depois ainda olhei à volta para ver se via o meu macaco. E não é que quando volto para guardar as coisas e vir pedir um macaco emprestado já lá não estava também o pneu? Eu assim não tenho condições. Isto é remar contra a maré. Assim não dá, não dá…

E lá tivemos que chamar a assistência para que trouxessem um pneu e um macaco. Ao fundo o Sr. Jorge ainda gritou:

- E é melhor um polícia também!

O assunto resolveu-se, mas realmente assim não dá...

terça-feira, 30 de junho de 2009

O Pedido

A chegada a casa da futura noiva (antes do pedido ainda não o era de facto) deu-se logo depois do almoço. A recepção foi feita por um dos empregados da casa, facto que causou o primeiro mal estar no pai do noivo (o futuro).

Indignou-se porque achava que aquilo não eram maneiras de receber visitas. No mínimo, alguém da familia deveria ter-se dignado a vir abrir a porta.

- Vou relevar o facto porque hoje não é dia para discussões. Mas as coisas não se fazem assim.

Alguém concordou que não se faziam, de facto, e que aquilo não eram maneiras, mas lá acabaram por minimizar o facto.

Remetidos para uma pequena sala, onde já estavam dispostas várias cadeiras, fomos convidados a sentar do lado direito.

- As do lado esquerdo são para os donos da casa. Familia dela!

A ordem foi seguida à risca. Eu tentei escolher a cadeira mais escondida. Do lado direito, é claro. Queria observar atentamente o que se passaria, mas o mais discretamente possível.

Uns minutos de espera e eis que entram os donos das cadeiras da ala esquerda. Acomodaram-se e um deles, presumivelmente o mais velho, o patriarca, levantou-se de seguida:

- Bom, penso que podemos dar início ao acto. Vejo que estão todos presentes, pelo que não há necessidade de mais demoras.

Todo o discurso era extremamente rico em gestos. A primeira sensação que tive era a de estar a assistir a uma peça de teatro amador. Bem amador mesmo! Quase como aqueles que se faziam nos tempos de escola.

- Antes de mais, acho que temos que nos apresentar todos, pelo que peço a cada um dos presentes que se levante, diga o nome e o grau de parentesco em relação aos que se pretendem noivo e noiva.

E lá se foram fazendo as apresentações, onde eu falei pela primeira e única vez. Acabado este processo, sem que eu tenha percebido metade dos nomes e ligações familiares (já que lá em baixo os empregados seguiam em alto som o "derby" entre o Petro de Luanda e o 1º de Agosto), o patriarca voltou ao discurso:

- Agora que nos conhecemos todos, darei então a palavra à vossa familia, para que nos digam o motivo que vos traz por cá (como se não soubessemos todos porque estavamos ali).

E levanta-se, agora, o padrinho do aspirante a noivo.

- Agradecendo o uso da palavra, na qualidade de tio e padrinho quero antes de mais agradecer o facto de nos terem recebido. Bom, estamos aqui porque o meu sobrinho G. pretende pedir em casamento a N. Como tal, deslocamo-nos até aqui para esse efeito.

- Muito bem. Nesse caso esperamos que nos entreguem formalmente a carta com o pedido. Como sabem essa é uma condição indispensável.

- Sim, nós sabemos e fizemo-nos acompanhar pela carta que pretendemos entregar.

O sobe e desce das duas personagens continuava, ao ritmo em que cada um tinha o direito da palavra. Enquanto isso um dos familiares dela sacudia-se nervoso na cadeira. O Petro de Luanda acabava de inaugurar o marcador. Já eu estava deliciado com aquela encenação toda...

Após a entrega da carta, o senhor exibe-a para todos como se fosse um troféu:

- Aqui temos a carta, entregue pelo padrinho do G., que passarei a abrir e a ler. A mesma faz-se acompanhar por 500 dolares, que eu mesmo guardarei (e antes que alguém tivesse ideia diferente, toca a por as notas no bolso).

As acções iam sendo descritas ao pormenor como se fosse para uma plateia de crianças.

A leitura da carta fez-se na íntegra, com todo o seu romantismo, sendo que no final veio o veredicto. E recomeça o sobe e desce:

- Tendo em conta os sentimentos expressos, com todo o amor e poesia, a nossa familia decide aceitar o pedido de casamento. Acolheremos o G. como se fosse nosso filho a partir de agora.

- Ficamos felizes por aceitarem o nosso pedido, como forma de gratidão, pedimos que aceitem também uma pequena oferta que trazemos connosco.

- Bom, não é tradição da nossa familia aceitarmos esse tipo de situações. Não gostamos de receber nada em troca nestas ocasiões (mas os 500 dolares bem guardados). Contudo (e esta palavra foi dita com ênfase, já que muda tudo) em respeito à vossa tradição vamos aceitar o que tiverem para nos dar. (espertos!)

E lá foi entregue o famoso alambamento, muito comum em Angola, que nada mais é que o popular dote que a familia do noivo oferece em troca da rapariga. Como se de uma transação económica se tratasse.

Em alguns casos, onde a tradição é levada ao extremo, a própria familia da noiva elabora uma lista com as ofertas que devem constar do alambamento. É normal pedirem-se fatos para o avô da noiva, sapatos, vestidos para a mãe, etc..

No caso, apenas foram ofertados alguns produtos alimentares e bebidas. Foi um alambamento soft...

Seguiu-se a marcação da data. Unanimemente foi escolhido o primeiro fim de semana de Setembro. Deste ano já? Sim...

Só então, após muito palavreado e encenações, aparece a noiva com a sua orgulhosa barriga (percebe-se agora o Setembro). Alguns tímidos aplausos como recepção e logo o noivo é convidado a oferecer o anel. É o culminar do ritual.

Alguém solta ao fundo um pedido de beijo. Hesitante, o noivo não sabe se deverá ou não corresponder, face ao olhar próximo do futuro sogro. Decide confirmar:

- Posso?

- Ai, já estás na Ilha e perguntas se pode passar na Mutamba? (traduzindo, a Ilha é uma zona de Luanda onde se chega passando antes pelo bairro da Mutamba)

Algumas gargalhadas surgem com o lado espirituoso paterno e eis que o timido beijo acontece.

E tudo terminou em funge, como muita coisa em Angola...

sábado, 27 de junho de 2009

O Lopes

O Lopes é um dos nossos encarregados em obra. Ou, pelo menos, aspirante a tal. E é uma figura toda ela singular. Em termos de fisionomia, só para vos enquadrar, diria que é uma mistura de Kramer (da famosa série Seinfeld) com o António Feio (o das conversas da treta).

Lembro-me que uma das primeiras coisas que me disse, quando o conheci, foi que estava a aprender Quimbundo.

- Assim é mais fácil comunicar com esta gente. Eu como tenho facilidade em línguas, já falo 5, vou dedicar-me a isso.

- Mas Lopes, pelo que me parece todos eles falam Português. Para quê o Quimbundo?

- É para ralhar. Eu ralho com eles em Quimbundo que tem mais impacto. Estes gajos são umas doninhas, fingem que não percebem Português. Aí saio-me com duas larachas em Quimbundo que eles até abanam!

Logo aqui percebi que o Lopes seria uma surpresa diária. E tentei imaginá-lo a dar reprimendas em Quimbundo, o que motivou em mim uma gargalhada interior.

Ao fim do primeiro dia de trabalho já ele tinha uma lista de três folhas A4 com necessidades para a obra. Entre elas, dois frigoríficos (um grande e um pequeno, ora pois) e outras tantas coisas supérfluas que lhe foram vetadas.

- Lopes, não andamos aqui para perder dinheiro. A obra no fim tem que dar lucro, não podemos gastar em coisas que não façam realmente falta.

- Eu percebo engenheiro, mas às vezes ocorrem-me necessidades e eu peço logo. Só depois dou comigo a pensar: "ó Lopes, tem mas é juízo!"

É mais uma particularidade do artista. Fala várias vezes na terceira pessoa. Há dias, perdeu a sua fita métrica e era vê-lo pela obra a gritar com os serventes:

- Vamos lá, todos à procura da fita do Lopes. O Lopes tem coisas para medir e precisa da fita!

É realmente um mamífero sui generis o "nosso" Lopes.

Hoje:

- Ó Engenheiro, chegue lá aqui.

- Diga Lopes.

- Olhe, tenho uma lembrança no meu telefone a tocar, veja. Sabe o que é?

- Não, o que se passa?

- É o Lopes que faz anos hoje. Veja lá que nem me lembrava, não fosse isto tocar e não dava por nada. Quarenta e um aninhos aqui no menino!

- Pelo menos lembrou-se de quantos faz. Parabéns!

Apertei-lhe a mão e fui-me embora a pensar no que ainda terei que ouvir até ao fim da obra. Sacana do Lopes! É bom homem, mas tem cada uma...