quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A cozinheira

Hoje houve uma pequena algazarra na obra. Uma coisa controlada, nada de dramático.

Segundo apurei, mais tarde, o epicentro daquela discussão fora uma das cozinheiras do estaleiro que, ao que parece, dividia atenções amorosas por dois dos trabalhadores. O facto não fora surpresa para o Lopes, que via novelas e sabia que aquilo era normal.

Ainda assim, quando a “esbanja amor” o serviu, à hora do almoço, ele não conseguiu evitar um aceno com a cabeça, com os cantos da boca virados para baixo, como quem diz “com que então a senhora, hã? Quem diria…”

Depois veio contar-me alguns pormenores que averiguara sobre aquele triângulo amoroso. Que ela tinha feito um feitiço qualquer e que ele só sabia que metia jindungo esmagado.

- Aquelas coisas lá das macumbas ou o que é! E metia funge também, parece…

E ele narrou-me o enredo completo daquela história, onde fiquei a saber que a cozinheira, além de feiticeira, tinha tendências ninfomaníacas, “o que explica ter enfeitiçado logo dois, não é?”. Acenei com a cabeça que era e ele continuou, dizendo-me que também já notara alguns olhares interessados da senhora. Mas ela não fazia o género dele, que gostava das mulheres mais rechonchudas “com o rabo em forma de pêra, está a ver?”. (E decididamente eu não estava a ver...)

- Até porque o Lopes não é para qualquer uma. Um corpinho cheio de recantos de lazer é só para quem eu quero. - rematou ele, ajeitando a gola da camisa.

E quando foi embora, depois de me contar toda a novela, concluíu:

- Eu realmente sempre a achei assim um pouco... – disse ele, fazendo um gesto indefinido com a mão, sem dizer o que a senhora era. Mas fosse o que fosse, era só um pouco.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Um dia de Praia

Estas coisas são complicadas. Quando o Zé Carlos disse "Que maravilha!" olhando para o mar, ninguém acreditou que aquilo era um simples louvor à natureza.

Mais tarde, já em casa, ele tentava justificar que aquela exaltação era só mesmo por causa do mar. E que não tinha culpa se, por coincidência, nesse mesmo instante a Ana Paula se tivesse levantado para reforçar o óleo brozeador pelo corpo, e “mesmo ali em frente”. E mais, ele nem sequer tinha reparado nas coxas grossas e nas nádegas redondas da Ana Paula. Muito menos no sinal ao pé do umbigo.


- Só faltou assobiares e ofereceres ajuda para passar o bronzeador. Francamente, Zé Carlos, logo tu, um homem da Igreja!

- Mas eu estava a olhar para o mar. E ele estava ali à minha frente, cheio de curvas, quer dizer, de ondas, tão bonito... Aquilo saiu-me.


Mas a Maria Celeste não quis ouvir desculpas. Serviu o ovo estrelado ao Zé Carlos – come e vê se te comportas decentemente - e foi dormir.

Na manhã seguinte os dois casais amigos voltaram a encontrar-se na praia. A Maria Celeste beliscou discretamente o Zé Carlos e disse-lhe, num sussurro:


- Vê lá como te portas, ouviste bem?


E o Zé Carlos, que não queria confusões, abriu o jornal e enterrou a cara nas notícias. Mas instantes depois, a Ana Paula (“que também é uma grande exibicionista”, diria mais tarde a Maria Celeste), levantou-se e repetiu o ritual polémico do dia anterior.

Ouviu-se um suspiro debaixo do jornal.


- O que foi? - perguntou a Maria Celeste agressiva.

- Nada, nada, é este Sporting. - disse o Zé Carlos. - Não sei, mas não estou com fé na manutenção...

- Ah, bom! - disse ela.


E o dia transformou-se num tormento para o Zé Carlos, que não podia nem tossir que todos olhavam desconfiados.


- E esses óculos escuros, Zé Carlos? Pra quê?

- Mas amorzinho, está tanto sol! Posso ferir a retina…

- Tira.

- Mas...

- Tira, Zé Carlos!




Ficção. Mais uma vez alerto que, qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

domingo, 11 de outubro de 2009

Um paraíso chamado Mussulo...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O horizonte de um almoço de Domingo...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Rascunhos no Mussulo II

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Nativo

O Lopes está cada vez mais Angolano. Segundo o próprio, já está de tal forma inserido no meio que até pensa ter origens na terra, “ali para os lados de Benguela”.

- Eu não tenho traços Africanos, assim de perfil? Diga lá com franqueza, ó engenheiro!

E colocou-se de lado, qual figura egípcia, para que eu pudesse confirmar que de Africano ele nada tinha.

- Olhe que não Lopes...

- Você está com má vontade, caraças! Veja lá bem, aqui assim ó, na parte do nariz.

- Talvez… - disse eu, não querendo retirar-lhe a empolgação de se considerar nativo.

O que é facto é que ele, podendo fisionomicamente nada ter de Africano, já se desenrasca e age como tal. Hoje, vejo-o chegar à obra com o carro cheio de gente.

- Lopes, que malta é esta?

- Eu sei lá! Iam pedindo boleia e eu ia recolhendo os gajos pelo caminho. Só lhes dizia é: “eu não faço paragens, descarrego todos no mesmo sítio”, mas eles aceitavam na mesma.

Abanei a cabeça e fiz-lhe ver que deveria evitar aquelas situações. Primeiro, porque não tinha autorização para isso, segundo porque podia até ser perigoso. Ele não sabia quem eram aquelas pessoas.

E naquele instante eu pensei que ela era, realmente, corajoso ou inconsciente. Aqueles tipos podiam ser bandidos, assassinos, ou, na pior das hipóteses, até podiam ser portistas, sei lá…

Ele concordou que deveria, de facto, ter mais cuidado. Mas ele era assim, um caridoso, o que poderia fazer? Talvez ser mais ajuizado, não é Engenheiro? Seria um bom começo, sem dúvida, concluí eu.

E preparava-se para me virar costas, mas antes insistiu:

- Não, mas repare bem, a sério. Aqui estas feições, veja, talvez ali da zona do Huambo, não?

sábado, 3 de outubro de 2009

Porque uma obra com uma vista assim...





... é só para quem merece!