Hoje houve uma pequena algazarra na obra. Uma coisa controlada, nada de dramático.
Segundo apurei, mais tarde, o epicentro daquela discussão fora uma das cozinheiras do estaleiro que, ao que parece, dividia atenções amorosas por dois dos trabalhadores. O facto não fora surpresa para o Lopes, que via novelas e sabia que aquilo era normal.
Ainda assim, quando a “esbanja amor” o serviu, à hora do almoço, ele não conseguiu evitar um aceno com a cabeça, com os cantos da boca virados para baixo, como quem diz “com que então a senhora, hã? Quem diria…”
Depois veio contar-me alguns pormenores que averiguara sobre aquele triângulo amoroso. Que ela tinha feito um feitiço qualquer e que ele só sabia que metia jindungo esmagado.
- Aquelas coisas lá das macumbas ou o que é! E metia funge também, parece…
E ele narrou-me o enredo completo daquela história, onde fiquei a saber que a cozinheira, além de feiticeira, tinha tendências ninfomaníacas, “o que explica ter enfeitiçado logo dois, não é?”. Acenei com a cabeça que era e ele continuou, dizendo-me que também já notara alguns olhares interessados da senhora. Mas ela não fazia o género dele, que gostava das mulheres mais rechonchudas “com o rabo em forma de pêra, está a ver?”. (E decididamente eu não estava a ver...)
- Até porque o Lopes não é para qualquer uma. Um corpinho cheio de recantos de lazer é só para quem eu quero. - rematou ele, ajeitando a gola da camisa.
E quando foi embora, depois de me contar toda a novela, concluíu:
- Eu realmente sempre a achei assim um pouco... – disse ele, fazendo um gesto indefinido com a mão, sem dizer o que a senhora era. Mas fosse o que fosse, era só um pouco.
Há 11 anos


