Há 11 anos
quarta-feira, 23 de junho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Há umas semanas foi assim...
- Cumé meu cota, posso lavar o teu carro?
- Não é preciso, ele está limpo.
- Ai é? Então vou sujar...
E quase posso garantir que o meu queixo descaiu de espanto quando o vi abrir a braguilha e contornar o meu carro, de fálico na mão, urinando-o de fio a pavio. Melhor dizendo, e dadas as sacudidelas que garantiram maior área afectada pelo ataque, urinar é um termo suave demais para o acto. O que ele fez, na verdade, foi mijar-me o carro todo. Seguiu-se novo diálogo:
- E agora, meu cota, já posso lavar? São 500 kwanzas, mas se for com esponja são 1000.
E foi nesta altura, quando eu ainda tentava acreditar no que tinha acontecido, que o Sr. Paciência (sim, o guarda ainda é o mesmo - há que garantir eficiência) chegou ao local e correu com o miúdo dali para fora.
- Só agora, Sr. Paciência?
- Ainda cheguei a tempo.
- Ai é, de quê?
Como resposta, ou na falta dela, ostentou-me apenas os 4 dentes que fazem do seu sorriso uma coisa caricata de se ver... E prontificou-se a arranjar uns dengues para me lavar o carro.
- E vai ser free, Sr. Engenheiro!
- Não é preciso, ele está limpo.
- Ai é? Então vou sujar...
E quase posso garantir que o meu queixo descaiu de espanto quando o vi abrir a braguilha e contornar o meu carro, de fálico na mão, urinando-o de fio a pavio. Melhor dizendo, e dadas as sacudidelas que garantiram maior área afectada pelo ataque, urinar é um termo suave demais para o acto. O que ele fez, na verdade, foi mijar-me o carro todo. Seguiu-se novo diálogo:
- E agora, meu cota, já posso lavar? São 500 kwanzas, mas se for com esponja são 1000.
E foi nesta altura, quando eu ainda tentava acreditar no que tinha acontecido, que o Sr. Paciência (sim, o guarda ainda é o mesmo - há que garantir eficiência) chegou ao local e correu com o miúdo dali para fora.
- Só agora, Sr. Paciência?
- Ainda cheguei a tempo.
- Ai é, de quê?
Como resposta, ou na falta dela, ostentou-me apenas os 4 dentes que fazem do seu sorriso uma coisa caricata de se ver... E prontificou-se a arranjar uns dengues para me lavar o carro.
- E vai ser free, Sr. Engenheiro!
Afinal há mais...
Bem haja a todos vocês que, mesmo após ter decidido fechar este espaço, há uns meses atrás, foram persistentes e continuaram a visitar-me. Pois é, a poeira baixou e eu, que fui coleccionando algumas peripécias durante este tempo, vou partilhá-las, agora, convosco!
A minha estadia em Angola está, agora sim, quase no final. Serão mais dois meses e depois ficará a saudade... Mas novos projectos se desenham no horizonte, uma nova cidade e, muito provavelmente um novo blog. Mas sobre isso falamos depois. Agora é apenas tempo de vos dizer: bem-vindos de volta!
Um abraço a todos e até ao próximo recado (para muito breve, onde vos contarei sobre as festas de quintal em Angola...)
A minha estadia em Angola está, agora sim, quase no final. Serão mais dois meses e depois ficará a saudade... Mas novos projectos se desenham no horizonte, uma nova cidade e, muito provavelmente um novo blog. Mas sobre isso falamos depois. Agora é apenas tempo de vos dizer: bem-vindos de volta!
Um abraço a todos e até ao próximo recado (para muito breve, onde vos contarei sobre as festas de quintal em Angola...)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Último Recado

Após alguns meses de recados, chegámos ao último, porque algum dia tinha que ser!
Agradeço a todos os que visitaram o blog e me deram o estímulo necessário para continuar a escrever, durante este período.
Continuarei em Angola, por mais uns tempos, sempre atento à realidade deste país tão peculiar.
Um abraço e até ao próximo blog…
Agradeço a todos os que visitaram o blog e me deram o estímulo necessário para continuar a escrever, durante este período.
Continuarei em Angola, por mais uns tempos, sempre atento à realidade deste país tão peculiar.
Um abraço e até ao próximo blog…
O Assalto
Sempre que se fala de Angola, invariavelmente há uma pergunta que toda a gente me faz:
- Então e assaltos, há muitos? – perguntam curiosos e entusiasmados, certamente à espera de ouvir alguma história com tiros e violência.
E eu noto perfeitamente o desânimo quando vos digo que “até à data não tive problema nenhum”. Alguns chegam mesmo a exteriorizar a decepção:
- Fogo… Nem sequer uma tentativa de assalto? Uma abordagem, nada?
- Nada!
Por isso mesmo, consigo imaginar muita gente que, ao ler o título deste recado, gritou com os punhos cerrados no ar:
- Yes!! Até que enfim!
Eu, lamentando eventuais desilusões que possam ocorrer, passarei a narrar a ocorrência.
E foi assim que aconteceu:
Seriam umas 18h30 quando o barco nos deixou em Luanda, após mais um intenso dia de trabalho no Mussulo. Como habitualmente, o embarcadouro estava cheio de gente, numa balbúrdia imensa. Dezenas de miúdos a jogar à bola, algumas vendedoras e inúmeros desocupados dividiam o espaço que, àquela hora, estava já escurecido pela noite.
Desde que comecei a trabalhar no Mussulo, de vez em quando aparece um miúdo (dos seus 14/15 anos) para me acompanhar no trajecto entre o barco e o carro. Aproveita sempre o percurso para me dizer que esteve ali o dia todo “a controlar o carro”, tendo até já evitado alguns furtos, até porque:
- Esse vosso guarda é um boelo! No outro dia até levou galhetas de um cota aí… Ele fica só aí à toa, não protege nada.
Pois bem, voltando ao caso, hoje mais uma vez, quando o barco atracou, lá estava o rapaz à minha espera.
- Cumé meu cota, é hoje que me vais dar um cumbú?
- Não, hoje estou sem dinheiro aqui comigo.
- Xê, sempre a mesma conversa? Vocês brancos são muito agarrados! Eu tenho pedido com educação, mas se “toda a hora” nunca tens, assim vou ter que te roubar!
E como ele deve ter percebido a minha surpresa com aquela revelação repentina, acrescentou:
- Vou mesmo, cota! Não ‘tás a facilitar os mambos!
- Mas porquê que eu tenho que te dar dinheiro?
- Porque eu controlo o teu carro.
- Mas nós temos um guarda ali. Não preciso que controles nada.
E ele olhou para o guarda ao fundo que, sentado num tijolo parecia, de facto, fazer tudo menos guardar os carros, e riu-se. Levou as mãos à cabeça e ao bom jeito Angolano disparou:
- Ê, ê, ê! Esse? Parece um anão! Isso lá é guarda?
Com aquela conversa, entretanto chegámos ao carro. Eu abri a porta e preparava-me para entrar, quando o rapaz voltou à carga:
- Xê? Não baza só. O cumbú?
- Já te disse que não tenho nada.
- Ai é? Vou chamar o meu amigo “caenche”, então!
E enquanto ele assobiava ao dito amigo, eu fui entrando no carro, preparando-me para ir embora. Antes, porém, que tivesse tempo de arrancar apareceu o tal “caenche”, que eu conhecia de vista, por ser presença diária por ali.
- Vê só Jaimão, tou a pedir cumbú a esse aí, porque lhe guardei o carro, e ele não quer dar!
- Nada, não podes. Esse é muçulmano. Não podes pedir nos muçulmanos.
E eu, que até ali só queria ir embora, despertei com aquela informação. Muçulmano?! Pus a cabeça do lado de fora da janela e cumprimentei o Jaimão, tentando criar um ambiente mais amistoso. Mas no fundo, o que eu queria mesmo era perceber as minhas origens árabes. E não era o único porque o tal miúdo, aspirante a ladrão, perguntou:
- Muçulmano, esse? Nem é castanho! Muçulmano de onde mais?
E o Jaimão, que era grande mas tinha um ar inofensivo, calmamente explicou:
- Esse vai todos os dias para o Mussulo. Trabalha lá. É mussulmano! Não podes pedir dinheiro aos mussulmanos porque eles passam toda a hora aqui!
E foi então que eu percebi que era um Mussulmano com dois “esses”, os mesmos de MuSSulo. Despedi-me do Jaimão e, antes de arrancar, olhei para o outro rapaz e disse:
- Tas a ver, não podes chatear os Mussulmanos.
E lá fui eu para casa, apenas com mais uma pequena paragem, uns metros mais à frente, onde um tijolo suportava um certo personagem:
- Sr. Paciência, você tem que estar ali ao pé dos carros, não é aqui! Como é que você controla as coisas daqui de longe?
- Ya, senhor, ya!
E como sabia que ele ia responder “ya” a tudo o que eu dissesse, e já se ia fazendo tarde, lá me fui embora.
Caenche: Na gíria local significa um homem musculado.
- Então e assaltos, há muitos? – perguntam curiosos e entusiasmados, certamente à espera de ouvir alguma história com tiros e violência.
E eu noto perfeitamente o desânimo quando vos digo que “até à data não tive problema nenhum”. Alguns chegam mesmo a exteriorizar a decepção:
- Fogo… Nem sequer uma tentativa de assalto? Uma abordagem, nada?
- Nada!
Por isso mesmo, consigo imaginar muita gente que, ao ler o título deste recado, gritou com os punhos cerrados no ar:
- Yes!! Até que enfim!
Eu, lamentando eventuais desilusões que possam ocorrer, passarei a narrar a ocorrência.
E foi assim que aconteceu:
Seriam umas 18h30 quando o barco nos deixou em Luanda, após mais um intenso dia de trabalho no Mussulo. Como habitualmente, o embarcadouro estava cheio de gente, numa balbúrdia imensa. Dezenas de miúdos a jogar à bola, algumas vendedoras e inúmeros desocupados dividiam o espaço que, àquela hora, estava já escurecido pela noite.
Desde que comecei a trabalhar no Mussulo, de vez em quando aparece um miúdo (dos seus 14/15 anos) para me acompanhar no trajecto entre o barco e o carro. Aproveita sempre o percurso para me dizer que esteve ali o dia todo “a controlar o carro”, tendo até já evitado alguns furtos, até porque:
- Esse vosso guarda é um boelo! No outro dia até levou galhetas de um cota aí… Ele fica só aí à toa, não protege nada.
Pois bem, voltando ao caso, hoje mais uma vez, quando o barco atracou, lá estava o rapaz à minha espera.
- Cumé meu cota, é hoje que me vais dar um cumbú?
- Não, hoje estou sem dinheiro aqui comigo.
- Xê, sempre a mesma conversa? Vocês brancos são muito agarrados! Eu tenho pedido com educação, mas se “toda a hora” nunca tens, assim vou ter que te roubar!
E como ele deve ter percebido a minha surpresa com aquela revelação repentina, acrescentou:
- Vou mesmo, cota! Não ‘tás a facilitar os mambos!
- Mas porquê que eu tenho que te dar dinheiro?
- Porque eu controlo o teu carro.
- Mas nós temos um guarda ali. Não preciso que controles nada.
E ele olhou para o guarda ao fundo que, sentado num tijolo parecia, de facto, fazer tudo menos guardar os carros, e riu-se. Levou as mãos à cabeça e ao bom jeito Angolano disparou:
- Ê, ê, ê! Esse? Parece um anão! Isso lá é guarda?
Com aquela conversa, entretanto chegámos ao carro. Eu abri a porta e preparava-me para entrar, quando o rapaz voltou à carga:
- Xê? Não baza só. O cumbú?
- Já te disse que não tenho nada.
- Ai é? Vou chamar o meu amigo “caenche”, então!
E enquanto ele assobiava ao dito amigo, eu fui entrando no carro, preparando-me para ir embora. Antes, porém, que tivesse tempo de arrancar apareceu o tal “caenche”, que eu conhecia de vista, por ser presença diária por ali.
- Vê só Jaimão, tou a pedir cumbú a esse aí, porque lhe guardei o carro, e ele não quer dar!
- Nada, não podes. Esse é muçulmano. Não podes pedir nos muçulmanos.
E eu, que até ali só queria ir embora, despertei com aquela informação. Muçulmano?! Pus a cabeça do lado de fora da janela e cumprimentei o Jaimão, tentando criar um ambiente mais amistoso. Mas no fundo, o que eu queria mesmo era perceber as minhas origens árabes. E não era o único porque o tal miúdo, aspirante a ladrão, perguntou:
- Muçulmano, esse? Nem é castanho! Muçulmano de onde mais?
E o Jaimão, que era grande mas tinha um ar inofensivo, calmamente explicou:
- Esse vai todos os dias para o Mussulo. Trabalha lá. É mussulmano! Não podes pedir dinheiro aos mussulmanos porque eles passam toda a hora aqui!
E foi então que eu percebi que era um Mussulmano com dois “esses”, os mesmos de MuSSulo. Despedi-me do Jaimão e, antes de arrancar, olhei para o outro rapaz e disse:
- Tas a ver, não podes chatear os Mussulmanos.
E lá fui eu para casa, apenas com mais uma pequena paragem, uns metros mais à frente, onde um tijolo suportava um certo personagem:
- Sr. Paciência, você tem que estar ali ao pé dos carros, não é aqui! Como é que você controla as coisas daqui de longe?
- Ya, senhor, ya!
E como sabia que ele ia responder “ya” a tudo o que eu dissesse, e já se ia fazendo tarde, lá me fui embora.
Caenche: Na gíria local significa um homem musculado.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
CAN 2010

Após viver o Euro2004 e a emoção com que os Portugueses acolheram o evento, tinha curiosidade em saber como seria este CAN2010, em Angola.
Ao chegar cá, há dois dias, logo percebi que os Angolanos adicionaram-se a este evento com muita paixão, fé e entusiasmo. São aos milhares as bandeiras de Angola nas ruas, um pouco por todo o lado, bem como o interesse demonstrado, por toda a gente, no torneio.
Há uma vontade enorme para que este CAN seja um sucesso, e toda a gente está disposta a dar o seu melhor em prol desse objectivo. Nem mesmo os tristes acontecimentos de Cabinda foram suficientes para resfriar os ânimos. Pelo contrário, só aumentaram a vontade em "fazer as coisas bem".
Estão, portanto, de parabéns os Angolanos, acima de tudo pelo espírito demonstrado ate agora.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
De volta
E cá estou eu de volta a Luanda, reabrindo a época de recados. À minha espera estavam 30 graus e uma desilusão colectiva pelo empate de Angola no primeiro jogo do CAN2010. Talvez por isso tenhamos esperado três horas (!!!) para que as malas começassem a passear pelo tapete.
E para os marinheiros de primeira viagem foi o cartão de boas vindas mais fiel possível à realidade. Para quê enganá-los se se pode mostrar o que esperar de Angola logo ali, no aeroporto?
Facilmente se distinguiam ali os novatos. Eram os únicos que esbracejavam e tentavam arrancar de uma funcionária qualquer informação. Esta, espojada (sentar é um verbo que não se aplica ao uso que fazia da cadeira) limitava-se a dizer:
- Eu não sei nada disso. Isso é com a TAP. O meu trabalho não é esse.
A fúria e indignação dos "virgens de Angolanismos" contrastava com a resignação dos mais experientes nestas andanças.
- Mas ninguém faz nada? - gritava um dos aflitos.
- Para quê, meu senhor? Sente-se e espere.
"Bem-vindos a Angola", pensava eu...
E para os marinheiros de primeira viagem foi o cartão de boas vindas mais fiel possível à realidade. Para quê enganá-los se se pode mostrar o que esperar de Angola logo ali, no aeroporto?
Facilmente se distinguiam ali os novatos. Eram os únicos que esbracejavam e tentavam arrancar de uma funcionária qualquer informação. Esta, espojada (sentar é um verbo que não se aplica ao uso que fazia da cadeira) limitava-se a dizer:
- Eu não sei nada disso. Isso é com a TAP. O meu trabalho não é esse.
A fúria e indignação dos "virgens de Angolanismos" contrastava com a resignação dos mais experientes nestas andanças.
- Mas ninguém faz nada? - gritava um dos aflitos.
- Para quê, meu senhor? Sente-se e espere.
"Bem-vindos a Angola", pensava eu...
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