Angola vai ficando cada vez mais quente. O Verão vai avançando sobre nós de forma esmagadora, somando-se às dificuldades inerentes ao local. Quaisquer cinco minutos pela obra já se tornam um sacrifício, sendo o trabalho burocrático, sob a “bênção” do ar condicionado, o único escape.
Mas concluídos todos os mails, relatórios e afins, restavam duas opções: continuar no escritório a desenvolver a actividade milenar de nada fazer, ou sair novamente para a obra e mandar uns bitaites “à engenheiro”. Confesso que ainda ponderei ficar pela primeira opção, mas a responsabilidade é uma virtude. Amén!
Ao fim de caminhar trinta segundos já suava por todos os poros e o mar, mesmo ali ao lado, parecia tão distante para quem está na praia a trabalho e não pode, simplesmente, aproveitar para vestir uns calções e dar um mergulho. O que não se entende, mas enfim, formalismos!
Ao terminar a “voltinha” da ordem sentia-me assim, como uma espécie de urso polar no deserto. A minha vontade era correr outra vez para o ar condicionado, quando sou interpelado por uma jovem vendedora que passava na praia. Não devia ter mais do que 10 anos, e ali estava ela, sob o árduo sol, a trabalhar.
- Senhor, não quer comprar umas lagostas?
- E quanto é?
- Dois mil kwanzas cada uma, senhor. Estão fresquinhas.
- Dois mil? O que é isso? Ainda ontem o pessoal da obra comprou a mil. Isso tá caro!
- Não, senhor. A mamã falou que se for branco o preço é dois mil.
Eu sempre soube que o preço dos artigos variava consoante as origens do comprador, contudo, jamais me tinha sido dito assim, com aquela frontalidade e ingenuidade, próprias de uma criança.
Enfim, não comprei as lagostas, mas até fiquei com vontade.
P.S. - Já só falta um mês para completar mais uma etapa!
Há 11 anos